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#Bolamense

Numa tarde chuvosa do último dia no mês de abril, chegamos à cidade de Águas Lindas em Goiás e ali, numa rua nos arredores desta cidade, em um campinho barrento de futebol, deparamos com cerca de duas dúzias de adolescentes, sendo treinados e orientados, por um cidadão de nome Manuel, que empunhava um apito verde e um boné azul.

         Estacionamos a camioneta num lote esburacado e permanecemos no interior do veiculo. Dali, com o coração partido, observávamos a correria do técnico e as sucessivas quedas dos garotos dentro daquela lama pastosa, que fazia sua marcação na bola e nos tênis dos meninos, com a sua cor marrom  encharcada.  

           Minutos após o fim do treino, passou por nós um garoto de cerca de 16 anos, a quem perguntamos, por que estavam esses meninos jogando a bola ou treinando, debaixo de uma chuva persistente e dentro de um campo esburacado e lamacento. O garoto olhou para nós e despreocupadamente replicou:

“tio aqui o negócio é desse jeito mesmo, aqui não tem campo de grama não e a Prefeitura não está  nem aí para nós”-.

             Descemos da camioneta e pedimos para conversar com o treinador Manuel. Ele pediu que esperássemos um pouco porque ele já estava iniciando uma pequena palestra com meninos, a fim de corrigir alguns erros que estavam cometendo nos passes da bola. Esperamos uns 10 minutos, até que o treinador se aproximou de nós e perguntou se podia nos ajudar em alguma coisa. Neste instante repetimos a mesma pergunta que havíamos feito ao garoto, que depois nos dissera que se chamava Tostinha. 

             Perguntamos ao treinador por que estavam esses meninos jogando a bola ou treinando, debaixo de uma chuva persistente e dentro de um campo esburacado e lamacento. O treinador então, num jeito muito manso e humilde nos disse que ele só tinha aquele espaço para plantar, regar e cuidar dos sonhos dessa garotada, porque não havia nenhum campo gramado à disposição dessa meninada em Águas Lindas. Perguntamos por que as camisas, os shorts e os meiões dos meninos eram de cores tão diversas, as chuteiras tão rasgadas e velhas e as bolas estavam de no mesmo jeito e desgastas? Ele respondeu:

“É a nossa realidade e o nosso castigo…”

        Uma constatação triste, chocante e dolorosa, há uns escassos quilômetros do Palácio do Presidente do País do Futebol e tetracampeão do mundo!

        Adolescentes e jovens chupando poeira densa e bebendo lodo dentro de um campo de barro, em busca da fuga das drogas, tentação de bandidagem e outros gravíssimos males que assolam a sociedade brasileira!

         Daí, o Diretor das categorias de base e o Presidente do Bolamense Futebol Clube, agremiação da primeira divisão da Federação de Futebol do Distrito Federal, tomaram ali mesmo a decisão de adotar aquele grupo de adolescentes e jovens que ali estavam e o seu treinador, doando-lhes uniformes de treinos, coletes, meiões, bolas, uniformes de jogo e os demais materiais próprios do futebol profissional e inscreve-los nos BID do Bolamense Futebol Clube na Confederação Brasileira de Futebol, (CBF) para participarem do campeonato oficial de juniores da  Federação de Futebol do Distrito Federal, sem almejar mais nada que não seja a busca pelo resgate da dignidade humana desses adolescente e jovens atletas do Brasil de amanhã e  cujo futuro, o sistema corrupto e injusto implantado no Brasil, teima em não deixar começar em dia algum!

           E assim começou a saga para inscrever esses garotos na CBF e na Federação de Futebol do Distrito Federal. Eram exames médicos, eram certidões de nascimento, CPF e RG que tivemos de providenciar em tempo record e era um campo gramado para eles treinarem e ônibus para os transportar de um lugar para outro. Enfim, tudo de difícil surgiu, a desafiar a nossa vontade de provocar a mudança na mente e na esperança de cada um desses meninos.

           Assim foi, até que chegou o dia do primeiro jogo amistoso onde iriam ter contato com um vestiário de um estádio oficial de futebol e usarem uniformes oficiais, bolas oficiais e chuteiras de marca, para o jogo oficial. Foi um clique e o  acender de uma luz no longe do mais longe do lá… na mente e na alma de cada um desses meninos que ainda ontem estavam correndo atrás da bola no barrão e hoje estão dentro do vestiário do Estádio da oficial da cidade de Luziânia de Goiás para jogar num  dos melhores gramados da região.

           Mas, como dizia Fernando Pessoa –

“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

           Todos juntos, a O Presidente do Bolamense, o Diretor das Categorias de Base do Bolamense, o treinador, a Comissão técnica, alguns dos pais dos meninos e os próprios adolescentes e jovens, não se apequenaram!!!!

 

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